Moçambique, país politicamente independente desde 1975, ainda não conseguiu superar muitos mantras coloniais. E enquanto isto não for feito, continuará sendo um “Estado” alheio a seus cidadãos, excludente, classista, colonialista e perpetuador dos processos de subalternização. A escola constitui mais um campo onde a lógica de exclusão se perpetua, um verdadeiro espaço de exercício daquilo que Bourdieu denominou de violência simbólica, um tipo de violência subtíl, quase que invisível, que se reproduz a partir dos símbolos e ideologias e que dificilmente é reconhecida pelas suas vítimas, pois, esta assume um carácter social  legítimo.

O modelo de ensino-educação no país alimenta a negação da nossa herança linguística cultural. A imposição do português como a única língua no sistema de ensino é uma grande violência que precisa ser rapidamente combatida. Estou ciente da introdução das línguas Bantu, mas é fundamental que se acelere, pois, já entram em vigor com muitos anos de atraso. A língua e a linguagem constituem formas de apreensão da realidade social como bem colocaram os construtivistas Peter Berger e Thomas Luckmann. O escritor queniano Ngugi Wa Ntiongo tem sido incisivo em afirmar que deslocar as pessoas da sua língua, é negar-lhes o acesso a si, a sua história, a sua ancestralidade, a possibilidade de tornar o mundo inteligível para si.

Escrevo isto a propósito de uma reportagem que circulou bastante nas redes sociais em que a repórter entrevista uma adolescente com recurso a língua portuguesa, ao que, a menina, diante de um grande constrangimento diz: “não sabe português, fala lá changana”. Os “assimilados” não tardaram em dar risadas, desqualificar a menina como se o português fosse o exclusivo meio para a aprovação da sua cidadania.

O pensamento abissal referido por Boaventura de Sousa Santos ainda domina no nosso país. O mesmo constitui-se pelas lógicas de inclusão e exclusão, tem os de um lado da linha abissal cuja humanidade é reconhecida e os que se encontram do outro lado, o lado da inutilidade, do descarte. Infelizmente, como no tempo colonial, não ter acesso a língua portuguesa em Moçambique é em simultâneo a negação da cidadania.

O bullying linguístico exercido nas escolas, é sem dúvidas um dos elementos por detrás dos elevados índices de desistência escolar. Não tem como alguém permanecer num espaço onde tenha dificuldades de apreender os conteúdos pela barreira linguística.

No vídeo em causa, os comentários de muitos direcionam-se para a menina que não sabia falar português. Poucos apontaram o dedo para o nosso Estado heterogéneo que luta para se construir homogéneo passando por cima das diferenças, em nome da unidade nacional. O caso da reportagem a que me refiro, diz mais sobre as bases da construção do nosso Estado do que sobre a menina. Institucionalizar o português como  língua oficial do país, pode ter sido politicamente estratégico mas é socialmente violento. É o Estado se voltando contra si, contra os seus cidadãos.

O nosso Estado precisa acelerar as rupturas com este passado colonial e colonizador. Um Estado que ignora a sua multiculturalidade é excludente, é violento, é perpetuador da dominação. Precisa-se reconhecer a diferença, precisa-se romper a vergonha que o colonialismo impôs perante as línguas nativas e precisa-se criar um ambiente político e social em que as pessoas se sintam livres para se expressarem nestas línguas em diferentes espaços sem terem rótulos de estranhos e atrasados. Precisa-se criar um ambiente social e cultural em que os pais não tenham vergonha de ensinar os seus filhos a se expressarem nas línguas nativas e que a vergonha seja reversa, ser moçambicano e carregar orgulho de falar, apenas línguas europeias.

Tudo o que aqui referi não implica um combate a língua portuguesa. Apenas, considero que a sua valorização não pode implicar a desvalorização das outras línguas. Defendo a possibilidade de coexistência das várias línguas de modo que as pessoas não vejam a sua existência, a sua humanidade sendo colocada em causa pela barreira linguística. As nossas escolas podem receber os alunos em línguas faladas nas suas regiões enquanto ensinam-nos o português para apreensão de outros conteúdos e não de antemão assumir-se o português como o que guia os destinos dos alunos.

Termino contando um acontecimento que registei na infância, em Chokwe, e que jamais esquecerei. Um dos amigos meus ficou doente e pediu ao outro para que fosse dizer a professora que ele estava doente. Como a conversa decorria em Changana, a única expressão que apareceu em português foi exactamente o termo “doente”. Ao que o outro questionou em em Changana, “doente” o que é?

Imagino o desafio de alguém que não conhece o termo doente, para a apreensão de outras matérias.

Pensando a partir da proposta da Professora Hildizina Dias, sobre uma “Educação Acolhedora”, estimular a aprendizagem e o uso das línguas locais é sem dúvida uma das grandes formas de acolhimento de grande parte dos cidadãos moçambicanos que até agora estão às margens.

* Edgar Bernardo é docente universitário, colaborador da Rede Hopem e Advisor do African Rising. É membro do Comité Editorial d´Alternactiva.

Edição: Marilu João e Boaventura Monjane

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