Miguel Luís José – Fotografia: CCPM

Quando a noite substitui o dia, isto é, por estas horas, uma entidade literária se apossa do meu corpo e me entrego à escrita e à leitura literária. Algumas vezes é um processo pacífico e outras nem por isso. Exige de mim um namoro com a palavra, de uma paixão e silêncio tão ruidoso que fico sozinho e mudo.  Hoje felizmente estou aqui, perante personalidades tão ilustres para fazer algo que o escritor Gonçalo M.Tavares no seu livro  Uma Viagem à Índia qualifica como «a maneira mais civilizada de se marcar uma distância de segurança», falar.  Ainda sobre um tema tão importante que como nos recorda Mateus 25:14-30 até Jesus Cristo não o deixou de fora de suas parábolas, o talento.  Estar hoje aqui é para mim algo tão prestigiante e por isso quero agradecer ao Prof. Rui Moreira de Carvalho pelo convite e pela atenção dedicada a toda comunidade estudantil moçambicana em Portugal e a cada um de vós pela presença!

Falar sobre o talento não é uma missão fácil, quer pela sua importância no desenvolvimento de qualquer que seja a atividade, assim como pela complexidade do conceito em si. Para este fórum, como jovem estudante moçambicano que frequenta o último ano do curso, muito mais que me preocupar em discutir questões conceptuais sobre o talento, gostaria nesta primeira abordagem de me focar na realidade, de modo particular no processo de formação, valorização e canalização do talento moçambicano e o papel que  cada um de nós , empresas, a CCPM, as instituições de ensino, o Estado e estudantes, pode prestar para com base no talento, de mãos dadas, alcançarmos os nossos objectivos individuais, de grupo e dos nossos países, Moçambique e Portugal, neste caso.

Uma das frases mais célebres sobre o talento é a que diz que «talento é 1% de inspiração e 99% de transpiração». E tudo que tem que ver com transpiração exige muitos actores, e nalguns casos muitos destes actores se esquecem de intervir. O talento como inclinação para alguém fazer algo pode ser natural ou adquirido. E uma coisa é certa, tem de ser trabalhado para que seja eficaz quando for aplicado na realização de uma actividade. As pessoas precisam de uma formação constante para que possam desenvolver o seu talento e este tenha uma produtividade acima da média. Daí que este processo chama a intervenção de todos actores acima mencionados. A primeira pessoa que se deve preocupar é o jovem. Este deve de forma abnegada correr atrás das coisas, se formar. Ao invés de ficar à espera de que as oportunidades se desloquem ao seu encontro, este deve fazer esse caminho de busca.

Ao longo dos últimos anos tem vindo cada vez mais um maior número de estudantes moçambicanos para se formarem em Portugal e não são poucas as dificuldades que encontram, quer desde a obtenção do visto, a chegada e inserção no ambiente estudantil assim como no ambiente profissional. Perante dificuldades e experimentando o fracasso os jovens desistem facilmente. Daí que há necessidade de as instituições e empresas auxiliarem os jovens neste processo. Por exemplo, facilitando o visto de viagem aos jovens que se deslocam a Portugal para estudar, sabemos que os Estados ao mais alto nível tem feito muito para resolver estes problemas, mas há que se fazer mais e de uma forma um pouco mais célere! A quantidade de documentos que se exige para que um jovem estudante moçambicano viaje para Portugal para se formar são tantos e difíceis de serem tramitados em pouco tempo.

Ultrapassada a questão dos vistos, quando o estudante consegue e desembarca em Portugal, já é Outubro ou Novembro e o semestre já caminha para o fim. Neste ponto as universidades são chamadas a ter uma especial atenção a estes estudantes, sem descurarem-se da sua tão difícil missão de formar profissionais bem qualificados e acima de tudo humanos, responsáveis e solidários, que é o seu dever primordial.

Quanto às empresas e aos empresários, participam deste processo de formação, valorização e mobilização do talento moçambicano fornecendo oportunidades de estágios dignos como os fornecidos pelas empresas que se associaram ao programa Cria Rede. Já diz o ditado que é de pequeno que se torce o pepino. Isto para dizer que quanto mais cedo os estudantes começarem a ter contacto com as empresas que poderão vir a integrar no futuro maior é o ganho para estas empresas. Daí que as empresas são chamadas também a participar neste processo, quer financiando bolsas de estudos dignas a estes jovens, quer fornecendo estágios a estes estudantes. Neste ponto o Governo também é chamado a intervir, fazendo o acompanhamento destes jovens quer desde o início até o fim do processo de formação. Quando não existe acompanhamento, alguém que deixa o seu país para estudar fora torna-se estrangeiro no país de origem e de acolhimento.

Portugal tem muitas empresas que operam em Moçambique. Estes estudantes que se encontram em formação neste momento são sem dúvida os potenciais continuadores da obra destas empresas que operam em Moçambique.

Da CCPM não me posso queixar, iniciativas como este debate que traz um estudante no painel, embora numa próxima oportunidade fosse melhor trazer um mais comedido que eu, iniciativas como o programa de estágios Cria Rede que me deu oportunidade de ter a minha primeira experiência profissional num escritório de advogados de topo, como a Abreu Advogados, provam o seu comprometimento com esta causa, embora sempre seja possível fazer-se mais.

Muito mais que recursos naturais e culturais diversos, Moçambique tem pessoas! Estas pessoas são talentosas, simpáticas, dedicadas, bonitas, alegres e com sentido de compromisso! Muitas dessas pessoas são jovens com muita vontade, não só de ajudar o país a crescer, mas a desenvolver.

Meus senhores, minhas senhoras, coragem!

Muito obrigado pela vossa atenção!

(Texto apresentado na Conferência Directório 2019/2020 da Camara de Comércio Portugal Moçambique)

* Miguel Luís José é estudante de Direito em Portugal e escritor.

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