{"id":532,"date":"2022-08-22T06:01:03","date_gmt":"2022-08-22T06:01:03","guid":{"rendered":"http:\/\/alternactiva.co.mz\/justicaclimatica\/?page_id=532"},"modified":"2023-01-09T21:54:38","modified_gmt":"2023-01-09T21:54:38","slug":"para-alem-do-gas-e-carvao-creditos-de-carbono-na-corrida-extractivista-aos-recursos-naturais-em-mocambique","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/alternactiva.co.mz\/justicaclimatica\/para-alem-do-gas-e-carvao-creditos-de-carbono-na-corrida-extractivista-aos-recursos-naturais-em-mocambique\/","title":{"rendered":"Para al\u00e9m do g\u00e1s e carv\u00e3o: cr\u00e9ditos de carbono na corrida extractivista aos recursos naturais em Mo\u00e7ambique"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"532\" class=\"elementor elementor-532\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-19b2698 elementor-section-full_width elementor-section-height-full elementor-section-height-default elementor-section-items-middle\" data-id=\"19b2698\" data-element_type=\"section\" data-settings=\"{&quot;background_background&quot;:&quot;classic&quot;}\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-56bbc71\" data-id=\"56bbc71\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-bd239fd elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"bd239fd\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t<style>\/*! elementor - v3.7.0 - 08-08-2022 *\/\n.elementor-heading-title{padding:0;margin:0;line-height:1}.elementor-widget-heading .elementor-heading-title[class*=elementor-size-]>a{color:inherit;font-size:inherit;line-height:inherit}.elementor-widget-heading .elementor-heading-title.elementor-size-small{font-size:15px}.elementor-widget-heading .elementor-heading-title.elementor-size-medium{font-size:19px}.elementor-widget-heading .elementor-heading-title.elementor-size-large{font-size:29px}.elementor-widget-heading .elementor-heading-title.elementor-size-xl{font-size:39px}.elementor-widget-heading .elementor-heading-title.elementor-size-xxl{font-size:59px}<\/style><h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Para al\u00e9m do g\u00e1s e carv\u00e3o:<br\/>\ncr\u00e9ditos de carbono na corrida extractivista aos recursos naturais em Mo\u00e7ambique<\/h2>\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-60c4bdb elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"60c4bdb\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t<style>\/*! elementor - v3.7.0 - 08-08-2022 *\/\n.elementor-widget-text-editor.elementor-drop-cap-view-stacked .elementor-drop-cap{background-color:#818a91;color:#fff}.elementor-widget-text-editor.elementor-drop-cap-view-framed .elementor-drop-cap{color:#818a91;border:3px solid;background-color:transparent}.elementor-widget-text-editor:not(.elementor-drop-cap-view-default) .elementor-drop-cap{margin-top:8px}.elementor-widget-text-editor:not(.elementor-drop-cap-view-default) .elementor-drop-cap-letter{width:1em;height:1em}.elementor-widget-text-editor .elementor-drop-cap{float:left;text-align:center;line-height:1;font-size:50px}.elementor-widget-text-editor .elementor-drop-cap-letter{display:inline-block}<\/style>\t\t\t\t<p>Natacha Bruna, Boaventura Monjane e Euridse Samuel<\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-accfe5e elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"accfe5e\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-b7303e2\" data-id=\"b7303e2\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-d8c397b elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"d8c397b\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">1. Do extractivismo de minera\u00e7\u00e3o<br\/>\n\u00e0 emerg\u00eancia do mercado de carbono<\/h2>\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2ba52f4 elementor-drop-cap-yes elementor-drop-cap-view-default elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"2ba52f4\" data-element_type=\"widget\" data-settings=\"{&quot;drop_cap&quot;:&quot;yes&quot;}\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p>A economia mo\u00e7ambicana apresenta uma estrutura t\u00edpica de uma economia extractiva. No geral, a pol\u00edtica econ\u00f3mica tem-se centrado em transformar o pa\u00eds num receptor de Investimento Directo Estrangeiro que se engaja num esquema de extrair-escoar-exportar que, embora resulte em taxas elevadas de crescimento, falha em proporcionar a melhoria do bem-estar da popula\u00e7\u00e3o (Mosca, Abbas e Bruna, 2016; Castel-Branco, 2010). O extractivismo predomina em m\u00faltiplos sectores para al\u00e9m da ind\u00fastria extractiva, como, por exemplo, no sector agr\u00e1rio, em que commodities agr\u00e1rias s\u00e3o produzidas e exportadas sem nenhum ou baixo n\u00edvel de processamento.<\/p><p>Estes esquemas extractivistas podem envolver custos ambientais e sociais, que reproduzem exclus\u00e3o social e pobreza rurais. Estudos mostraram que a subsist\u00eancia rural, em diferentes pontos do pa\u00eds onde se desenvolvem actividades extractivistas, tem sido negativamente afectada (Feij\u00f3, 2016; Mosca e Selemane, 2011). Em particular, notam-se efeitos adversos \u00e0 sobreviv\u00eancia rural e intensificadores de pobreza local, por exemplo, em regi\u00f5es de extrac\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o em Tete e de g\u00e1s natural em Inhambane e planta\u00e7\u00e3o de eucaliptos em v\u00e1rios pontos do pa\u00eds.<\/p><p>No entanto, com a emerg\u00eancia da crise clim\u00e1tica global, os resultantes custos socioecon\u00f3micos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tornam-se vis\u00edveis. Mo\u00e7ambique foi identificado como um dos pa\u00edses mais vulner\u00e1veis \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, principalmente devido \u00e0s fracas e fr\u00e1geis caracter\u00edsticas socioecon\u00f3micas e de desenvolvimento humano (Brito &amp; Holman, 2012; Banco Mundial, 2010). Nos \u00faltimos anos, o pa\u00eds registou fortes secas, inunda\u00e7\u00f5es e ciclones (Ciclone Idai e Kenneth) que resultaram em perda de milhares de hectares de culturas alimentares e de rendimento, calamidades sanit\u00e1rias, infraestruturas e paraliza\u00e7\u00f5es de unidades econ\u00f3micas. Al\u00e9m dos impactos dos eventos extremos, muitas regi\u00f5es passam silenciosamente pelos impactos da variabilidade do clima (como, por exemplo, mudan\u00e7as nos padr\u00f5es de chuva, entre outros) que impactam directa e negativamente nas actividades de subsist\u00eancia e de obten\u00e7\u00e3o de rendimento da popula\u00e7\u00e3o rural.<\/p><p>\u00c9 no contexto de mitigar os efeitos da crise ambiental global atrav\u00e9s da limita\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE), que emerge o mercado de carbono como uma das recomenda\u00e7\u00f5es do Protocolo de Kyoto5.<\/p><p>O mercado de carbono consiste na compra e venda de cr\u00e9ditos de carbono, os quais permitem que os compradores continuem a poluir o equivalente em toneladas de carbono. Por sua vez, a capta\u00e7\u00e3o de carbono acontece atrav\u00e9s de diferentes projectos de mitiga\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, incluindo reflorestamento (plantio de \u00e1rvores) ou atrav\u00e9s de manuten\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de conserva\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a devida medi\u00e7\u00e3o e verifica\u00e7\u00e3o da captura em toneladas de carbono, os cr\u00e9ditos s\u00e3o vendidos ao pre\u00e7o de mercado. O pre\u00e7o de cr\u00e9ditos de carbono no mercado internacional tem variado de 5 a 36 USD por tonelada nos \u00faltimos 5 anos6. Portanto, a implementa\u00e7\u00e3o dos projectos de capta\u00e7\u00e3o de carbono visa capturar o m\u00e1ximo de di\u00f3xido de carbono e vender os cr\u00e9ditos de carbono para pa\u00edses industrializados, ind\u00fastrias poluidoras, ou qualquer agente que procure compensar as emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono.<\/p><p>No entanto, tais projectos s\u00e3o, geralmente, direccionados a pa\u00edses menos industrializados e com alto potencial de biodiversidade, como \u00e9 o caso de Mo\u00e7ambique, onde cerca de 25% do territ\u00f3rio nacional possui potencial de conserva\u00e7\u00e3o (ANAC, 2015).<\/p><p>Com a combina\u00e7\u00e3o da necessidade de adapta\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o e do potencial da biodiversidade, Mo\u00e7ambique \u00e9 receptor de fundos clim\u00e1ticos e um destino estrat\u00e9gico de projectos de adapta\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. No entanto, estudos t\u00eam mostrado que este conjunto de projectos impacta negativamente a subsist\u00eancia rural e estimula novas formas e din\u00e2micas de resist\u00eancia das comunidades, face \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o predadora de extrac\u00e7\u00e3o de recursos (Fairhead et al, 2012; Bruna, 2019). \u00c9 neste contexto que este artigo procura sublinhar um novo constituinte na corrida aos recursos naturais em pa\u00edses como Mo\u00e7ambique: carbono. Este novo recurso, que \u00e9 vendido nos mercados internacionais em forma de cr\u00e9ditos de carbono, \u00e9 resultante da implementa\u00e7\u00e3o de projectos \u201cverdes\u201d que visam a conserva\u00e7\u00e3o e a redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es.<\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-70b9fa3 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"70b9fa3\" data-element_type=\"section\" data-settings=\"{&quot;background_background&quot;:&quot;classic&quot;}\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-e4b1288\" data-id=\"e4b1288\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-3e7e1a1 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"3e7e1a1\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-0bb9efb\" data-id=\"0bb9efb\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-ac14723 elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"ac14723\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">2. Captura de carbono e redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es em Nhambita (Gorongosa): que significado para a corrida<br\/> aos recursos naturais?<\/h2>\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-bac7a11 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"bac7a11\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p>Devido \u00e0s din\u00e2micas abordadas anteriormente, nota-se uma mudan\u00e7a gradual de portf\u00f3lios de grandes multinacionais (como, por exemplo, a SASOL que incrementou o seu foco em g\u00e1s natural em nome da mitiga\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas) e uma reorienta\u00e7\u00e3o do capital global para investimentos considerados \u201cverdes\u201d \u2013 energias renov\u00e1veis, biocombust\u00edveis, planta\u00e7\u00f5es florestais, entre outros (Banco Mundial, 2010).<\/p><p>Isto significa que a corrida aos recursos tem sido moldada para responder \u00e0 necessidade emergente de captura de carbono e\/ou redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es. J\u00e1 existem em Mo\u00e7ambique diferentes projectos de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas previstas em estrat\u00e9gias nacionais do sector (Estrat\u00e9gia Nacional para a Redu\u00e7\u00e3o de Emiss\u00f5es de Desmatamento e Degrada\u00e7\u00e3o Florestal, Conserva\u00e7\u00e3o de Florestas e Aumento de Reservas de Carbono atrav\u00e9s de Florestas e a Estrat\u00e9gia Nacional de Adapta\u00e7\u00e3o e Mitiga\u00e7\u00e3o de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas).<\/p><p>De entre os v\u00e1rios projectos \u201cverdes\u201d em opera\u00e7\u00e3o em Mo\u00e7ambique, este texto centra-se na experi\u00eancia na localidade de Nhambita, que faz parte da zona tamp\u00e3o do Parque Nacional da Gorongosa. Foi implementado, neste local, um projecto integrado num esquema de pagamentos por servi\u00e7os ambientais (Payment for Environmental Services) no \u00e2mbito da Estrat\u00e9gia Nacional do REDD+. Para al\u00e9m destas novas din\u00e2micas causarem um aumento na corrida pela terra em Mo\u00e7ambique (alguns estudos j\u00e1 comprovam isto, veja, por exemplo, Borras et al 2011, Bruna 2019), estas t\u00eam promovido uma corrida a \u00e1reas de alta biodiversidade para captura de carbono e posterior venda de cr\u00e9ditos de<\/p><p>carbono, ou seja, uma corrida ao carbono. O caso de Nhambita em Gorongosa, um projecto enquadrado no \u00e2mbito do REDD+ e implementado pela empresa Envirotrade, demonstra como esta corrida ao carbono se materializa, quais as implica\u00e7\u00f5es destes tipos de projectos para a popula\u00e7\u00e3o rural e quais os potenciais ganhos para os actores implementadores (geralmente externos).<\/p><p>De acordo com a avalia\u00e7\u00e3o de impacto do projecto, cerca de 1.510 produtores estiveram envolvidos no projecto (Marzoli and Lungo, 2009). O projecto consistia, essencialmente, em capturar carbono atrav\u00e9s de plantio de \u00e1rvores de diferentes esp\u00e9cies e redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es pelo n\u00e3o-desmatamento de novas \u00e1reas para a pr\u00e1tica de agricultura de subsist\u00eancia para fins alimentares e n\u00e3o-alimentares. Marzoli e Lungo (2009) afirmam que, entre 2003 e 2008, o projecto arrecadou um total de 900.000 USD no mercado de carbono gerados, principalmente, pelas actividades de agro-florestamento. O papel dos produtores era o de plantar as \u00e1rvores e oferecer todos os cuidados necess\u00e1rios durante o per\u00edodo de crescimento das mesmas. O n\u00famero de \u00e1rvores plantadas por produtor varia consoante a \u00e1rea dispon\u00edvel que cada produtor tem.<\/p><p>Em retorno, eram efectuados pagamentos anuais decrescentes de acordo com o n\u00famero de \u00e1rvores plantadas por produtor, na condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o abrir novas \u00e1reas para machambas. Por\u00e9m, ap\u00f3s 15 anos, a empresa retirou-se do local e os produtores afirmam que a mesma n\u00e3o mais pagou aos produtores pelas \u00e1rvores ou pelo investimento realizado. De acordo com um antigo produtor e t\u00e9cnico da Envirotrade,<\/p><p><em>Eu recebi plantas de lim\u00e3o, cajueiro e mangueira para plantar. Plantei na margem que \u00e9 machamba da minha casa. Ent\u00e3o, recebemos fichas para receber dinheiro do contrato; no primeiro ano recebi &#8211; foi 300 [meticais] e tal; outros recebiam muito dinheiro. Me disseram que \u00e9 consoante as plantas que eu recebi e eram muito poucas. Tinha por a\u00ed cento e tal plantas, no sistema de quintal. No segundo ano foi pior, recebi 290 meticais. No terceiro ano fui receber 90 meticais. Com esse dinheiro acabei por comprar s\u00f3 sal. Fizeram reuni\u00e3o e disseram que o dinheiro h\u00e1-de vir, e n\u00e3o veio [at\u00e9 agora] que o projecto morreu. S\u00f3 fic\u00e1mos com plantas.<\/em><\/p><p>De acordo com outro antigo produtor, \u201c[no caso em que] morriam algumas plantas o projecto tinha direito de descontar\u201d. Estes depoiamentos sugerem que as rela\u00e7\u00f5es de trabalho sob este modelo eram hostis aos camponeses a ponto de o incumprimento do estabelecido no contrato resultar em puni\u00e7\u00f5es severas por parte da empresa, incluindo a rescis\u00e3o do contrato (Monjane, 2012).<\/p><p>De acordo com o antigo coordenador da empresa, o pagamento era sustentado pelo valor de venda do carbono. As receitas das vendas dos cr\u00e9ditos do carbono tinham tr\u00eas principais finalidades: (1) pagamento aos produtores; (2) custos operacionais do projecto; e, (3) custos relacionados com a medi\u00e7\u00e3o e verifica\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos de carbono. A medi\u00e7\u00e3o e verifica\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos de carbono eram realizadas por terceiros e n\u00e3o pela pr\u00f3pria empresa. No entanto, devido \u00e0 queda do pre\u00e7o do carbono e a consequente inviabilidade financeira, a empresa teve de interromper as suas opera\u00e7\u00f5es e fechar o projecto.<\/p><p>Embora os produtores indiquem vantagens do plantio de \u00e1rvores (proporcionam sombra e alguma protec\u00e7\u00e3o de vento forte, e frutos), as implica\u00e7\u00f5es negativas socioecon\u00f3micas s\u00e3o vis\u00edveis. Para al\u00e9m das d\u00edvidas e ruptura do rendimento ap\u00f3s a sa\u00edda da empresa, o plantio de \u00e1rvores afectou o uso da terra pelos camponeses, gerando uma tend\u00eancia de substituir culturas alimentares por agro-florestamento, pondo em causa o acesso e disponibilidade de alimentos, adicionado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o se poder abrir novas \u00e1reas para outras actividades. Por outro lado, observou-se que as actividades agro-florestais absorveram a m\u00e3o-de-obra dispon\u00edvel por agregado, ou seja, menor propor\u00e7\u00e3o do trabalho era dispendido nas machambas. Gerou tamb\u00e9m contradi\u00e7\u00f5es e conflitualidades com os modos de vida e produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola dos agregados na medida em que n\u00e3o eram mais permitidas as pr\u00e1ticas que envolvem pousio de terra (pela proibi\u00e7\u00e3o de desmatar \u00e1reas). Estas conflitualidades n\u00e3o foram acompanhadas por estrat\u00e9gias e pol\u00edticas compensat\u00f3rias pelas perdas de acesso \u00e0 terra, constrangimentos nas pr\u00e1ticas tradicionais de agricultura e nem de explora\u00e7\u00e3o de trabalho.<\/p><p>Apesar das implica\u00e7\u00f5es da corrida ao carbono na subsist\u00eancia rural se distinguirem das implica\u00e7\u00f5es do extractivismo mineiro e agr\u00e1rio, existem alguns pontos de converg\u00eancia entre os dois processos. A crescente demanda por terra, para a implementa\u00e7\u00e3o de tais projectos, envolvendo, ou n\u00e3o, a expuls\u00e3o dos produtores, causa uma ruptura nas estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia (durante e depois da retirada da empresa do terreno), sem compensa\u00e7\u00e3o e com altos riscos para a seguran\u00e7a alimentar. Junta-se a estes \u00a0impactos, a intensifica\u00e7\u00e3o da diferencia\u00e7\u00e3o social dentro da comunidade. A visita ao campo permitiu perceber que foram os agregados que mais terra possuem, que mais \u00e1rvores plantaram e mais dinheiro receberam; isto permitiu que tivessem possibilidades de mais investir em produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola atrav\u00e9s de contrata\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra local (precisamente m\u00e3o-de-obra dos agregados com menos terra e mais desfavorecidos, incluindo a de produtores cujos contratos com a Envirotrade foram cancelados, como puni\u00e7\u00e3o pelo incumprimento de cl\u00e1usulas dos contratos, na sua maioria por abrirem novas \u00e1reas para a produ\u00e7\u00e3o de culturas alimentares).<\/p><p>No caso de Nhambita, a usurpa\u00e7\u00e3o dos recursos n\u00e3o envolveu expuls\u00e3o, como acontece em casos de extractivismo de minera\u00e7\u00e3o e agr\u00e1rio. A usurpa\u00e7\u00e3o de recursos envolveu a apropria\u00e7\u00e3o do controle e gest\u00e3o da terra na medida em que os camponeses contratados deixaram de ter poder de decis\u00e3o sobre o uso e aproveitamento das suas pr\u00f3prias terras. Mas envolveu tamb\u00e9m a usurpa\u00e7\u00e3o de recursos ecol\u00f3gicos, particularmente o direito de fazer uso da biodiversidade para a sua pr\u00f3pria subsist\u00eancia, ou seja, os camponeses perderam o seu direito de emiss\u00e3o de carbono para permitir que os compradores dos cr\u00e9ditos de carbono o obtivessem. A este processo de extrair direitos de emiss\u00e3o legitimados pelas pol\u00edticas de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, d\u00e1-se o nome de extractivismo verde (Bruna, 2021).<\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-eb7a596 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"eb7a596\" data-element_type=\"section\" data-settings=\"{&quot;background_background&quot;:&quot;classic&quot;}\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-fa84553\" data-id=\"fa84553\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-4dc2895 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"4dc2895\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-3d4d377\" data-id=\"3d4d377\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-944dadc elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"944dadc\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">3. A emerg\u00eancia do mercado de carbono<br\/> e os seus custos sociais:<br\/>A materializa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a clim\u00e1tica em mo\u00e7ambique<\/h2>\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-629a7b9 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"629a7b9\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p>Estas estrat\u00e9gias de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o prev\u00eaem a implementa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios projectos baseados na terra, nomeadamente o aumento e a consolida\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de conserva\u00e7\u00e3o, aumento das planta\u00e7\u00f5es florestais, como eucalipto ou pinheiros, produ\u00e7\u00e3o de culturas para biocombust\u00edveis em monocultura (incluindo para exporta\u00e7\u00e3o), mudan\u00e7as na forma como a popula\u00e7\u00e3o rural usa a terra (t\u00e9cnicas de agricultura do tipo \u201cclimate-smart\u201d), entre outros. Ou seja, nota-se que alguns programas verdes t\u00eam um grande interesse econ\u00f3mico escondido por detr\u00e1s de interesses ambientais neste tipo de pol\u00edticas.<\/p><p>Geralmente, essas pol\u00edticas n\u00e3o s\u00e3o previa e adequadamente informadas aos agregados familiares envolvidos em tais projectos, tal como \u00e9 o caso de Nhambita (entre outros casos, como o exemplo da Reserva Nacional do Gil\u00e9 e implementa\u00e7\u00e3o de REDD+ de conserva\u00e7\u00e3o). No entanto, existem m\u00faltiplos actores que lucram com a venda de carbono, desde empresas de verifica\u00e7\u00e3o e medi\u00e7\u00e3o at\u00e9 aos compradores (que s\u00e3o geralmente os mais poluidores a n\u00edvel global). Portanto, pa\u00edses com uma baixa pegada ambiental, como \u00e9 o caso de Mo\u00e7ambique, s\u00e3o encorajados a conservar e preservar a sua biodiversidade em nome da luta contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, enquanto outros pa\u00edses e ind\u00fastrias compram esses cr\u00e9ditos de carbono e continuam a industrializar, a poluir e a gerar riqueza com base na extra\u00e7\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o de direitos de emiss\u00e3o entre outros recursos ecol\u00f3gicos. Constitu\u00eddo por uma rela\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica em que uns ganham e outros perdem em nome do ambiente, e os que perdem s\u00e3o exactamente os que menos polu\u00edram historicamente; portanto, este extractivismo verde est\u00e1 no centro do que \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o da injusti\u00e7a clim\u00e1tica verificada em Mo\u00e7ambique.<\/p><p>\u00a0<\/p><p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p><p>BORRAS, S. M., Fig, D., &amp; Su\u00e1rez, S. M. (2011b). The politics of agrofuels and mega-land and water deals: Insights from the ProCana case, Mozambique. Review of African Political Economy, 38(128), 215\u2013234. https:\/\/doi.org\/10.1080\/03056244.2011.582758<\/p><p>BRUNA, N. (2019). Land of plenty, land of misery: Synergetic resource grabbing in Mozambique. Land, 8(8), 113.<\/p><p>CASTEL-BRANCO, C. (2010). Economia Extractiva e Desafios de Industrializa\u00e7\u00e3o em Mo\u00e7ambique. In Cadernos IESE.<\/p><p>MONJANE, B. (2012). Escravatura de Carbono e REDD+ em Mo\u00e7ambique: camponeses &#8216;cultivam&#8217; carbono ao servi\u00e7o de poluidores, Jornal @Verdade, dispon\u00edvel em:\u00a0 https:\/\/verdade.co.mz\/escravatura-de-carbono-e-redd-em-mocambique-camponeses-cultivam-carbono-ao-servico-de-poluidores\/<\/p><p>MOSCA, Jo\u00e3o, Abbas, M., &amp; Bruna, N. (2016). Governa\u00e7\u00e3o 2004 \u2013 2014. Poder, Estado, Economia e Sociedade. Alcance Editores.<\/p><p>BRITO, R., &amp; Holman, E. (2012). Responding to climate change in Mozambique: Theme 6 \u2013 Agriculture.<\/p><p>THE WORLD BANK. (2010a). Economics of Adaptation to Climate Change.<\/p><p>FAIRHEAD, J., Leach, M., &amp; Scoones, I. (2012). Green Grabbing: A new appropriation of nature? Journal of Peasant Studies, 39(2), 237\u2013261.<\/p><p>https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2012.671770<\/p><p>FEIJ\u00d3, J. (2016). Investimentos, Assimetrias e Movimentos de Protesto na Prov\u00edncia de Tete (Observador Rural No 44).<\/p><p>MOSCA E SELEMANE (2011). El dorado Tete. CIP, Maputo.<\/p><p>MARZOLI AND LUNGO (2009). Evaluation of N&#8217;hambita Pilot Project. Novembro, 2009.<\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para al\u00e9m do g\u00e1s e carv\u00e3o: cr\u00e9ditos de carbono na corrida extractivista aos recursos naturais em Mo\u00e7ambique Natacha Bruna, Boaventura Monjane e Euridse Samuel 1. Do extractivismo de minera\u00e7\u00e3o \u00e0 emerg\u00eancia do mercado de carbono A economia mo\u00e7ambicana apresenta uma estrutura t\u00edpica de uma economia extractiva. No geral, a pol\u00edtica econ\u00f3mica tem-se centrado em transformar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-532","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alternactiva.co.mz\/justicaclimatica\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/532","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alternactiva.co.mz\/justicaclimatica\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/alternactiva.co.mz\/justicaclimatica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alternactiva.co.mz\/justicaclimatica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alternactiva.co.mz\/justicaclimatica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=532"}],"version-history":[{"count":101,"href":"https:\/\/alternactiva.co.mz\/justicaclimatica\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/532\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1230,"href":"https:\/\/alternactiva.co.mz\/justicaclimatica\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/532\/revisions\/1230"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alternactiva.co.mz\/justicaclimatica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=532"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}